Na ilha de Golem Grad, na Macedônia do Norte, visitantes podem ver uma fila de tartarugas montando umas nas outras como uma locomotiva lenta e libidinosa. Para Dragan Arsovski, ecólogo da Sociedade Ecológica da Macedônia, tal cena costumava ser engraçada, até ele saber o que realmente está acontecendo. Agora não ri mais.

Essa ilha desabitada em um país que já fez parte da Iugoslávia está repleta de cerca de mil tartarugas mediterrâneas (também chamadas de tartarugas de Hermann ou Testudo hermanni) —especialmente machos. Eles perseguem parceiras de forma agressiva, tornando a vida das escassas fêmeas da ilha insalubre e curta. Algumas dessas fêmeas até morrem ao cair dos penhascos da ilha. Em um artigo publicado no mês passado na revista Ecology Letters, pesquisadores descobriram que os machos implacáveis estão levando sua população à extinção.

A ilha, no Lago Prespa, tem um planalto florestal cercado por penhascos íngremes. Quando Arsovski começou a estudar as tartarugas em 2008 “era uma população bastante densa e aparentemente próspera”, disse ele.

Mas, por algum motivo, havia muito mais machos adultos do que fêmeas —19 machos para cada fêmea no planalto, na última contagem. Ele e seus colegas documentaram como os machos pareciam administrar seus instintos carnais montando uns nos outros.

Então, após muitos anos de estudo, Arsovski percebeu que as fêmeas eram menores do que deveriam e morriam jovens. Ele também percebeu que aqueles trens copulatórios antes cômicos eram compostos por muitos machos perseguindo apenas uma fêmea. Quando a fêmea se cansava, o trem se transformava em um amontoado frenético de répteis. “Ela fica literalmente soterrada por machos”, disse Arsovski.

Ele e seus coautores escrevem que, como parte do cortejo das tartarugas, eles “empurram, mordem (às vezes a ponto de causar sangramento), montam e finalmente cutucam vigorosamente as fêmeas em fuga” com uma ponta afiada da cauda. Três quartos das fêmeas da ilha tinham lesões genitais.

A atenção masculina incessante parecia estar levando as fêmeas à morte precoce. Os cientistas se perguntaram se o estresse também impede as fêmeas de se reproduzirem; elas podem armazenar esperma por vários anos em vez de fertilizar seus óvulos. Os pesquisadores começaram a transportar tartarugas fêmeas para o consultório de um veterinário para fazer radiografias.

Os exames revelaram que a barriga da maioria das fêmeas da ilha estava vazia. Apenas 15% das fêmeas do planalto carregavam ovos. Mas entre as tartarugas de uma população próxima no continente, todas as fêmeas estavam grávidas, com a barriga repleta de até 11 ovos.

Mais uma pista sobre a vida sombria das fêmeas de Golem Grad foi que, em várias ocasiões, cientistas as viram se jogar dos penhascos.

Experimentos anteriores haviam mostrado que as tartarugas da ilha são navegadoras destemidas de seu terreno nativo acidentado e escalam saliências sem medo. Então Arsovski montou um experimento em campo: ele colocou fêmeas em um cercado temporário com uma saída que levava a uma queda curta e acolchoada.

As tartarugas fêmeas do continente, quando sozinhas, nunca usavam a saída. Em contraste, muitas das fêmeas da ilha eventualmente caminhavam para fora do penhasco simulado. Quando os cientistas adicionaram cinco machos excitados ao cercado, porém, quase todas as fêmeas acabaram caindo. Os autores observaram que, enquanto as fêmeas do continente foram empurradas, muitas das fêmeas da ilha “saíram voluntariamente”.

Tartarugas machos também às vezes caem da borda da ilha. Mas, disse Arsovski, “há uma proporção significativamente maior de fêmeas que morrem assim”.

Certa vez, ele colocou um dispositivo GPS em uma das poucas fêmeas da ilha que carregavam ovos para rastrear onde ela os depositava. Em vez disso, os dados do acelerômetro do dispositivo “simplesmente enlouqueceram” um dia, disse ele. Quando voltou à ilha, encontrou-a morta na praia, com o casco despedaçado.

Os cientistas preveem no novo estudo que a última tartaruga fêmea de Golem Grad morrerá em 2083.

A alta concentração de machos agressivos “na verdade parece estar causando um vórtice de extinção”, disse Jeanine Refsnider, ecóloga evolutiva da Universidade de Toledo, em Ohio, que não participou do estudo.

Refsnider “nunca tinha ouvido falar de nada assim” em um ambiente natural sem perturbações humanas como poluição ou perda de habitat, disse ela, acrescentando: “É realmente incomum e perturbador, mas é realmente fascinante”.

Algo deve ter desequilibrado essa população para ter machos demais. Os cientistas dizem que pode ter sido variação aleatória. No continente, há um pouco mais de fêmeas do que machos.

Também é possível que humanos tenham levado as tartarugas para a ilha em primeiro lugar, talvez em números desiguais. As tartarugas podem viver por um século se as condições forem adequadas e, misteriosamente, mais de cem dos machos mais velhos de Golem Grad têm números entalhados em seus cascos.

“Não temos ideia de onde eles vêm”, disse Arsovski. “Conversei com tantas pessoas nesta região —as pessoas mais velhas que consegui encontrar.”

Ninguém sabe a resposta, exceto as tartarugas. Em questão de décadas, elas podem desaparecer e levar seus segredos consigo.

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