A sensibilidade quase sobrenatural das trombas dos elefantes depende, em parte, de um componente inesperado: a presença de uma densa rede de vibrissas ou “bigodes”, muito semelhantes aos que estão presentes em gatos ou ratos, de acordo com uma nova pesquisa.

Os cerca de mil “fios de bigode”, analisados por pesquisadores na Alemanha em elefantes-asiáticos (Elephas maximus) bebês e adultos, possuem variações funcionais em sua estrutura dependendo da posição em que se encontram na tromba e também da proximidade em relação ao corpo do animal (na ponta ou na base).

O resultado é uma espécie de enxame de sensores táteis, que transmitem aos grandes mamíferos uma ampla gama de informações sobre tudo o que tocam com a tromba, além de até complementar a visão dos bichos, que não é das mais acuradas.

As descobertas, descritas em artigo que saiu na última quinta-feira (12) na revista Science, não são simples fruto da curiosidade científica desinteressada, por mais que os elefantes fascinem pesquisadores e leigos.

Como destaca a equipe liderada por Andrew Schulz e Katherine Kuchenbecker, ambos do Instituto Max Planck de Sistemas Inteligentes, em Stuttgart, as soluções adotadas pelo organismo dos animais para mapear o mundo ao seu redor trazem inspirações importantes para a tecnologia humana, como novas abordagens robóticas (afinal, robôs também precisam captar informações de forma análoga aos sentidos dos seres vivos).

Desse ponto de vista, é indiscutível que a tromba é uma maravilha da engenharia viva. Derivada da junção do focinho com o lábio superior dos paquidermes, ela é formada por 90 mil feixes de fibras musculares e tem graus de liberdade de movimento quase infinitas (grosso modo, isso significa que ela consegue se mexer para quase todos os lados no espaço tridimensional).

Os “fios de bigode” que a recobrem estão presentes tanto no dorso da tromba quanto em suas superfícies laterais e são 16 vezes mais numerosos que os de um rato, por exemplo (proporcionalmente, a densidade deles é comparável à vista nos roedores, com algo entre 3 e 5 fios por centímetro quadrado na ponta da tromba).

O que a análise conduzida pela equipe do Max Planck mostrou é que provavelmente essas vibrissas não ficam devendo nada à de animais mais famosos pelo uso sensorial das estruturas. Ao contrário de gatos e ratos, os paquidermes não consigam mexê-las de forma voluntária, porque não contam com as proteínas especializadas no folículo dos fios que conduzem essa movimentação. Mas essa lacuna é sanada pela própria conformação do “bigode”.

Primeiro, a equipe verificou que o formato exato das vibrissas varia de acordo com sua disposição ao longo da tromba. Na porção distal (como o nome indica, mais distante do corpo do elefante), elas são mais finas, vão se afunilando mais no sentido da ponta e estão achatadas, com aspecto de lâmina. Já as da porção proximal da tromba (mais próximas da cabeça do paquiderme, portanto) afunilam-se menos e são mais arredondadas, além de serem onduladas.

Essas diferenças simples são o suficiente para postular aspectos funcionais, de acordo com os pesquisadores –o formato distal facilita a detecção da direcionalidade dos movimentos e da presença dos objetos que a ponta da tromba está manipulando, enquanto as vibrissas proximais podem funcionar como “sensores de proximidade” ao redor da região facial do bicho, compensando assim a visão limitada dos elefantes.

Outros detalhes importantes, que valem, em maior ou menor grau, para ambos os tipos de vibrissas, são a diferença de espessura e rigidez entre a ponta e a base das estruturas (elas são rígidas embaixo e flexíveis na ponta) e também de porosidade (elas são ocas na base e densas na ponta).

Essas características fazem com que as vibrissas da tromba sejam mais resistentes a impactos e dobras e ainda facilitam a transmissão de vibrações da ponta dos fios até a base e, dela, para os neurônios responsáveis pela transmissão da sensação de tato nos animais. Em outras palavras, a complexidade estrutural transforma as vibrissas em sistemas ainda mais sensíveis aos estímulos que surgem quando os bichos estão manipulando objetos ou tateando com as trombas.

“A inteligência física desses três gradientes funcionais [as diferenças de geometria, porosidade e dureza dos fios] que se juntam nas vibrissas dos elefantes expandem a nossa compreensão do funcionamento do tato e podem inspirar novas abordagens na percepção tátil artificial”, concluem os autores, destacando mais uma vez o potencial das descobertas para a robótica.

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