Tudo corre bem na viagem de retorno da Artemis 2, após a missão contornar a Lua. Mas há uma exceção: o banheiro, aquele que provavelmente é o equipamento mais importante a bordo, segundo a astronauta Christina Koch, 47, a encanadora espacial.
Segundo a Nasa, uma reação química no tratamento da urina pode ter entupido o sistema do vaso sanitário.
Um problema com o banheiro já havia sido reportado, horas após o lançamento da espaçonave, no dia 1º deste mês, de Cabo Canaveral, na Flórida (EUA). Koch ajustou os controles do sistema, que foi reiniciado com a ajuda da equipe em terra. O problema, aparentemente, havia sido solucionado.
“Tenho orgulho de me chamar de encanadora espacial”, respondeu Koch, bem-humorada, em uma entrevista. “Foi só uma questão de ter ficado parado por muito tempo e precisar de um tempinho para aquecer. Inicialmente achamos que poderia haver algo obstruindo o motor e, felizmente, está tudo funcionando perfeitamente.”
Porém, não ficou tudo bem. Ao tentar tentar expelir a água residual, normalmente liberada no espaço, o sistema não funcionou corretamente.
Koch descreveu o odor proveniente do banheiro, cujo nome é sistema universal de gerenciamento de resíduos, como “um cheiro de queimado de calefação”.
O plano B foi ativado. Os astronautas foram instruídos a usar os “dispositivos dobráveis de contingência para a eliminação de urina”, ou seja, saquinhos pessoais e reutilizáveis. Já o sistema para as fezes funciona sem problemas.
“O sanitário continua funcionando. O problema que estamos resolvendo é o esvaziamento do tanque de águas residuais”, explicou na terça-feira (7) o diretor de voo, Rick Henfling.
Reação química
O assunto tem sido um tema recorrente nas entrevistas coletivas realizadas no Centro Espacial Johnson, na cidade americana de Houston, que recebeu em 1970 a famosa mensagem “Houston, tivemos um problema aqui”, transmitida pelo astronauta Jack Swigert, da Apollo 13, após a explosão de um tanque de oxigênio –no filme estrelado por Tom Hanks, a frase é atribuída a Jim Lovell e reformulada como “Houston, temos um problema”.
“Inicialmente, achamos que poderia se tratar de uma formação de gelo em um bocal, na parte externa da nave. Mas já temos certeza de que não se trata de uma formação de gelo. Colocamos a nave em uma posição voltada para o Sol, a fim de eliminar qualquer gelo, ativamos aquecedores e ainda observamos uma obstrução”, disse Henfling.
“A hipótese mais recente está relacionada a algum processo químico usado para garantir que as águas residuais não desenvolvam microrganismos. É possível que esteja ocorrendo uma reação química em que alguns resíduos estejam sendo gerados e se depositando em um filtro”, acrescentou o diretor.
“Assim que a nave voltar, poderemos entrar e chegar à origem do problema”, disse a administradora da Direção de Missões de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração da Nasa, Lori Glaze.
Sanitário de milhões
Avaliado em cerca de US$ 23 milhões, o sanitário é semelhante ao da Estação Espacial Internacional (ISS) e é a primeira vez que é usado em uma viagem tripulada ao espaço. Os astronautas da Apollo não tinham um banheiro e recorreram a sacos especiais para coletar os dejetos, deixados na superfície lunar.
Na nave Orion, o banheiro fica sob o piso e o barulho dentro dele é tão intenso que os astronautas precisam proteger os ouvidos. O equipamento conta com sistemas de sucção para compensar a microgravidade.
Existe uma via para o descarte da urina, que é tratada antes de ser liberada no espaço –dias atrás, Koch mostrou como as partículas de urina liberadas podiam ser vistas da janela. O outro sistema é para as fezes, que são depositadas em sacos compactados e que serão descartados quando a Orion voltar à Terra, nesta sexta-feira (10).