Uma dupla de astrônomos nos EUA diz acreditar que o Telescópio Espacial James Webb registrou alguns exemplares da primeira geração de estrelas do Universo. Devesh Nandal, pesquisador da Universidade da Virgínia, e Avi Loeb, respeitado astrônomo de Harvard (quando não está obcecado vendo naves alienígenas em toda parte, o que acontece às vezes), publicaram sua suspeita na última quinta-feira (5), em artigo no Astrophysical Journal.

Eles afirmam acreditar que os enigmáticos objetos registrados em imagens do Webb e genericamente conhecidos como LRDs (“little red dots”, ou “pequenos pontos vermelhos”) seriam exemplares dessas primeiras estrelas. Não literalmente, no sentido de que foram as primeiras a aparecer no Universo, ponto, mas no sentido de que elas pertencem à categoria da primeira geração de formação estelar.

Os astrofísicos dividem estrelas em três populações, baseadas nos resultados que obtiveram ao estudar o espectro (a “assinatura de luz”) de várias delas e identificar sua composição. Todas, claro, são majoritariamente feitas de hidrogênio e hélio. Mas algumas são mais ricas em elementos pesados (como o Sol) e outras são mais pobres neles. Essas são as populações 1 e 2.

Contudo, sabemos que, no Big Bang, só foram produzidos dois elementos químicos, os mais leves: hidrogênio e hélio (vá lá, uma pitadinha de lítio também). Todo o resto da tabela periódica foi fabricado por estrelas, que fundem em seu interior núcleos atômicos mais leves e produzem com isso outros mais pesados, que depois semeiam pelo espaço, polinizando nuvens de gás que futuramente darão origem a outras estrelas.

Isso por óbvio significa que as primeiras estrelas do Universo devem ter sido feitas inteiramente de hidrogênio e hélio (era tudo que havia!), embora não se vejam esses exemplares aqui na Via Láctea, depois de bilhões de anos de polinização estelar com elementos pesados. Entra em cena a até agora hipotética (mas meio incontornável) população 3, composta de estrelas só de hidrogênio e hélio.

O Webb naturalmente está atrás delas, e, se não há nenhuma nas redondezas, ele precisa procurar no espaço distante –o que equivale a olhar para o passado remoto do Cosmos, época em que elas presumivelmente devem ter sido menos incomuns.

O problema aí é que estrelas muito distantes são extremamente difíceis de observar individualmente, mesmo com o melhor telescópio. Elas teriam de ser extraordinariamente grandes e brilhantes. Felizmente, modelos teóricos dessa população 3 sugerem que elas podem ter atingido tamanhos muito maiores do que os das estrelas das outras duas populações (até para explicar como buracos negros supermassivos que moram no coração das galáxias conseguiram se formar tão depressa na história cósmica).

Foi basicamente esse o gancho que a dupla de astrônomos pegou. Eles simularam o espectro de uma estrela supermassiva com até 1 milhão de massas solares (admitamos, número ousado, uma vez que as estrelas “modernas”, populações 1 e 2, só atingem, quando muito, umas 100-150 massas solares) e descobriram que a luminosidade esperada se encaixa bem com os LRDs encontrados a variadas distâncias, bem como os traços do espectro simulado.

Lançam assim a hipótese: os LRDs podem ser estrelas de população 3. Mas podem não ser também. Os astrônomos até aqui têm considerado a ideia de que podem ser núcleos galácticos ativos obscurecidos por poeira, ideia que também enfrenta dificuldades. O artigo de Nandal e Loeb adiciona uma nova –e empolgante– possibilidade.

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