Jesus seria de esquerda ou de direita? Eis uma discussão anacrônica que gera intenso debate. Sobretudo agora que a administração Trump entrou em confronto aberto com o Papa Leão 14. Afinal, como as escrituras e a doutrina da Igreja encaixam —ou colidem— com o discurso político?

O Catolicismo defende valores normalmente associados ao conservadorismo e à direita, como a família, a fé e a responsabilidade individual. Mas, por outro lado, o Cristianismo veio promover a ajuda aos necessitados e aos excluídos e a partilha da riqueza —princípios mais associados à esquerda.

A verdade é que, face ao que eram os cânones das sociedades da época, Jesus foi quase um revolucionário na Judeia romana do século 1. Ele foi um pregador carismático, que afrontou o poder dos fariseus e espalhou mensagens radicais de inclusão e igualdade.

No Novo Testamento, Jesus é citado a dizer: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Mas, desde sempre que a instituição Igreja Católica interferiu nos assuntos de Estado.

Além de líderes espirituais, os Papas também têm enorme influência política.

E fazem uso dela. Basta dizer que, durante a Idade Média, a Igreja travou expedições militares e religiosas (as Cruzadas), financiou guerras, legitimou e excomungou reis.

Durante o século 20, a Doutrina Social da Igreja, que tanto criticou o marxismo como o capitalismo selvagem, teve um impacto político profundo, na Europa e nos regimes latino-americanos. Inspirou resistências, a defesa dos mais desfavorecidos e a transição democrática.

Todos os últimos Papas tiveram fortes intervenções políticas. Por exemplo, Pio 11 criou o Vaticano como estado soberano, João Paulo 2º apoiou a queda dos regimes comunistas, Francisco criticou abertamente os populismos.

Leão 14 segue na mesma linha, ao condenar, com toda a firmeza, a política belicista de Trump.

Eu acredito que o Papa só está a fazer o seu trabalho: a defesa do Evangelho.

Dizer-se cristão praticante e defender políticas que promovam a guerra ou excluam etnias, minorias ou grupos sociais, como faz hoje a ultradireita, é uma contradição e uma apropriação inaceitável. Porque tanto as Escrituras, como a doutrina social da Igreja e as últimas encíclicas, advogam exatamente o oposto: a paz, o amor e a integração.


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